A cidade que se faz em cena
É relativamente comum, em algumas manhãs, dobrar as equinas do Centro e tcharam!

No meio da calçada, um set de filmagem havia tomado conta da rua. Cabos, refletores, uma câmera apontada para a fachada de um edifício modernista. Três pessoas de fone de ouvido cordenavam o movimento em silêncio. Uma atriz esperava o sinal, imóvel, com aquela concentração quieta de quem está prestes a habitar outro mundo.
Fiquei olhando por alguns minutos, sem pressa, me esquecendo por um segundo do meu destino. Porque é isso que o Centro faz com a gente: ele transforma o cotidiano em cena! E quem vive por aqui já sabe: não é raro cruzar com uma equipe de filmagem numa esquina, reconhecer um ator num café, ouvir alguém comentando sobre as últimas audições enquanto espera o sinal fechar. O Centro de São Paulo é, há décadas, um dos grandes sets naturais do cinema e da televisão brasileira. A arquitetura modernista, a estratificação humana, a luz que bate diferente entre os edifícios, tudo isso atrai cineastas, diretores de fotografia e roteiristas que entendem que algumas histórias só podem ser contadas aqui.
E tem um projeto que traduz essa relação entre centro e cinema melhor do que qualquer outro: o Cine Minhocão. Desde 2019, o festival independente leva exibições ao ar livre para o Elevado João Goulart, aquele mesmo Minhocão que os paulistanos reconquistaram aos poucos como espaço de convívio e liberdade. Com um triciclo, um projetor, som e baterias portáteis, a estrutura enxuta do festival é em si uma declaração: o cinema não precisa de paredes para acontecer. Precisa de cidade, de pessoas e de histórias que valham a pena contar. A edição de 2026 — a terceira em formato de festival — recebeu 2.400 curtas inscritos de todo o mundo, selecionou 21 filmes de 9 países e 8 estados brasileiros, com passagens por Cannes, Berlim, Sundance e Tiradentes. Tudo isso numa estrutura totalmente independente, custeada pelos próprios apoiadores. O cinema mais democrático da cidade acontece a céu aberto, no coração do centro, e quem passa por ali numa noite de sessão entende exatamente o que significa ocupar a cidade com cultura.
Mas o Centro não é só cenário e festival. É também sala de exibição, plateia, debate. E nesse sentido, a Avenida Paulista e seu entorno formam um dos territórios cinematográficos mais ricos do país.

Os templos da sétima arte
O Cine Belas Artes é, para mim, o mais especial de todos. Inaugurado em 1943 como Cine Ritz, atravessou décadas, nomes e crises, e sobreviveu a cada uma delas com a dignidade de quem sabe o que representa. Durante a ditadura, foi um bastião de resistência intelectual: os filmes de Godard, Pasolini, Fassbinder, Glauber Rocha e Herzog passavam por aqui quando passavam em muito poucos outros lugares. Em 2011, quando fechou, quase 100 mil pessoas se mobilizaram para reabri-lo, e conseguiram! Tombado como patrimônio histórico estadual, voltou em 2014 reformado, com seis salas batizadas com os nomes de Villa-Lobos, Cândido Portinari, Oscar Niemeyer, Aleijadinho, Mário de Andrade e Carmen Miranda. Uma declaração de amor à cultura brasileira embutida na própria arquitetura do lugar. Escondido na esquina da Paulista com a Consolação, continua sendo o cinema de quem busca histórias fora do circuito comercial, com um noitão na madrugada para quem não quer que o dia acabe.
Poucos passos adiante, o Cine Marquise guarda sua própria história no subsolo do Conjunto Nacional. Inaugurado em 1963 como Cine Rio, é hoje eleito o melhor cinema de São Paulo segundo o ranking da Casual EXAME, com 84 jornalistas, críticos e criadores de conteúdo votando. O segredo da sua sobrevivência, segundo o CEO Marcelo Lima, está na escuta: o Marquise calibra sua programação para o microclima da Paulista, entendendo que o público daqui tem seus próprios gostos, ritmos e preferências.
O Reserva Cultural, na Paulista, 900, nasceu em 2005 com uma missão clara: exibir filmes independentes e fora do circuito comercial num momento em que as grandes redes dominavam tudo. Funciona como um complexo cultural completo — além das quatro salas de cinema, tem livraria, cafeteria e restaurante. É o tipo de lugar que convida a passar o dia inteiro.
No IMS Paulista — Instituto Moreira Salles, na Paulista, 2.424, o cinema aparece como parte de um projeto cultural mais amplo, ao lado de exposições de fotografia, biblioteca especializada e programação que cruza imagem e pensamento. O cineteatro do IMS é um dos espaços mais refinados da cidade para ver um filme com contexto, curadoria e silêncio de qualidade.
E para os que amam o circuito comercial sem abrir mão de conforto, o Cinemark Cidade São Paulo, no Shopping Cidade São Paulo, oferece seis salas no coração da Paulista, uma opção para os grandes lançamentos com toda a infraestrutura de uma grande rede.

O que está por vir
E o centro ainda tem novidades guardadas. O Nu Cine Copan, no térreo do icônico Edifício Copan de Oscar Niemeyer, vai reabrir após quase quatro décadas fechado, com tela LED de 17 metros, sistema de som Dolby Atmos e cerca de 440 assentos. Um cinema que renasce dentro de um dos edifícios mais simbólicos da cidade. A previsão é para ainda em 2027, e a espera vale cada dia.
A cidade que é o filme
O que me fascina no cinema do centro é essa sobreposição de camadas: você assiste a um filme sobre a cidade, sai para a rua e a cidade continua o filme. Os atores que cruzam nas calçadas, as equipes que montam seus sets nas esquinas, a luz dos refletores que se mistura com a dos postes. Tudo aqui tem algo de cinematográfico.
O Cine Minhocão entende isso melhor do que ninguém: o melhor set é a própria cidade. E o Centro de São Paulo, que nunca precisou de roteiro, já é por natureza uma grande história em andamento.
Sente-se. O filme está prestes a começar!
📍 Cine Minhocão — Elevado João Goulart (Minhocão)
📍 Cine Belas Artes — Rua da Consolação, 2423
📍 Cine Marquise — Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional
📍 Reserva Cultural — Av. Paulista, 900
📍 IMS Paulista — Av. Paulista, 2424
📍 Cinemark Cidade São Paulo — Av. Paulista, 1230, Shopping Cidade SP
📍 Nu Cine Copan — Av. Ipiranga, 200 (em breve)
IAGO CALEGARI | @iagocalegari

Iago Calegari é diretor criativo, estrategista de marketing e curador de experiências. Apaixonado por arte, cultura, gastronomia, vinhos e experiências estéticas, vê a cidade como um território de encontros, descobertas e sensações. Nesta coluna, percorre as muitas camadas do centro de São Paulo em busca de lugares, histórias e pessoas que mantêm viva a vida cultural da região — compartilhando reflexões e experiências para explorá-lo com mais sensibilidade e repertório.
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