A Itália Que Mora Em Mim E No Centro de São Paulo

Imigrantes italianos em São Paulo, em cerca de 1890.

 

Tem coisas que a gente herda sem perceber. E eu não estou falando de bens ou títulos… Falo de inclinações, comportamentos e, por que não, sensibilidades! A família do meu pai é de origem italiana, e foi através dela que aprendi, desde cedo, algumas das disposições que mais me definem: o apreço pela mesa generosa e bem posta, o prazer estético nas coisas simples, a crença de que o belo e o útil não precisam se excluir. A sensibilidade italiana, aquela que transforma o cotidiano em arte e o trabalho em vocação, foi aplicada a mim pelas brechas da convivência familiar, antes mesmo que eu tivesse palavras para descrevê-la.

Então quando me mudei para o Centro de São Paulo, descobri que havia escolhido, sem saber, morar exatamente onde essa história foi escrita com mais força.

A cidade que os italianos ajudaram a construir

Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, mais de um milhão de italianos desembarcaram em São Paulo. Vieram para as lavouras de café, ficaram nas fábricas, ergueram bairros inteiros, como Bixiga, Mooca e Brás. E, inevitavelmente, chegaram ao Centro. Em 1901, 90% dos trabalhadores das fábricas paulistanas eram italianos.

Essa presença deixou marcas, algumas bem profundas e outras super visíveis, pelas quais eu passo todos os dias, mas nem sempre com tempo parar e contemplá-las. Como, por exemplo, o Edifício Martinelli, na Rua São Bento, foi o primeiro arranha-céu da América do Sul, idealizado pelo empreendedor italiano Giuseppe Martinelli. O Palácio dos Correios, projetado pelos italianos Domiziano Rossi e Felisberto Ranzini. Além, claro, do próprio Theatro Municipal, cujo projeto também passou pelas mãos de arquitetos italianos. Não vamos esquecer do Viaduto Santa Ifigênia, projetado por Giuseppe Chiappori e Giulio Michetti.

O Centro de São Paulo é, em grande parte, uma obra italiana. E nenhum símbolo traduz isso melhor do que o Edifício Itália.

O Circolo e o arranha-céu: um manifesto

Inaugurado em 1965, o Edifício Itália — cujo nome oficial é Circolo Italiano — não é só um prédio. É uma declaração. Com seus 165 metros de altura e 46 andares projetados por Franz Heep, ele representa a ascensão de uma comunidade: de trabalhadores agrícolas que chegaram sem nada a construtores de uma metrópole.

O Circolo Italiano existe desde 1911, fundado para reunir as famílias italianas de São Paulo e preservar a língua, os costumes e o espírito comunitário da Itália em terras brasileiras. Quando transferiu sua sede para o arranha-céu que ajudou a conceber, foi como se toda uma geração de imigrantes dissesse: chegamos, ficamos, e construímos algo à altura do que trouxemos.

Ainda hoje o edifício pulsa com essa energia. O Terraço Itália, lá no topo, oferece uma das vistas mais deslumbrantes da cidade — e a sensação de que São Paulo, vista de cima, ainda tem muito da Itália em suas formas.

Instituto Italiano di Cultura di San Paolo. Foto: Iago Calegari.

O Instituto Italiano de Cultura — e uma nova parceria que me orgulha

A poucos quarteirões dali, na Avenida Higienópolis, há uma mansão eclética construída em 1922 que guarda uma história igualmente bonita. Erguida como residência da família Oscar Rodrigues Alves, na época em que Higienópolis era o endereço dos barões do café, foi adquirida pelo governo italiano em 1967. Hoje é a sede do Instituto Italiano de Cultura de São Paulo, órgão oficial do governo italiano que desde 2005 promove a cultura italiana na cidade através de cursos de língua, exposições, concertos, teatro, cinema e conferências. O edifício, tombado como patrimônio da cidade, tem um salão para 285 pessoas e uma biblioteca com cerca de 30 mil títulos.

Atualmente, o Instituto recebe a exposição “5+1” — em cartaz até 2 de maio, com entrada gratuita. A mostra reúne seis grandes nomes do design italiano contemporâneo: Matteo Cibic, Marcantonio, Francesco Maccapani Missoni, Simone Micheli e Antonio Aricò, os cinco Designers do Ano de edições anteriores do BOOMSPDESIGN, ao lado de Sara Ricciardi, a designer homenageada da edição atual e primeira mulher a integrar este grupo. Juntos, compõem um panorama que celebra a força, a diversidade e a continuidade do design italiano contemporâneo, em alguns casos com peças desenhadas na Itália e produzidas no Brasil, materializando a metáfora perfeita desta relação entre os dois países.

E tem mais: o Instituto é também o ponto de partida dos Itinerários Culturais Italianos em São Paulo — passeios a pé guiados pelo centro histórico e por Higienópolis, que revelam as raízes italianas da cidade com profundidade e prazer. Uma experiência que eu recomendo de coração!

Cinema, samba e a Itália que nunca foi embora

A presença italiana no centro não vive só na pedra e no concreto. Ela vive também nas telas, e a XI Mostra Permanente de Cinema Italiano, realizada pelo Instituto em parceria com o Centro Popular de Cultura da UMES, leva essa herança ao Cine Teatro Denoy de Oliveira, na Bela Vista. Um convite para descobrir o cinema italiano em toda a sua riqueza, da grande tradição ao contemporâneo.

E há ainda aquele legado que talvez seja o mais improvável e o mais bonito: Adoniran Barbosa: João Rubinato, filho de imigrantes italianos, que transformou o cotidiano paulistano em samba. E Lina Bo Bardi, arquiteta ítalo-brasileira que projetou o MASP como um gesto de generosidade para a cidade inteira.

A Itália que veio para São Paulo não ficou guardada. Ela se misturou, virou cidade, virou música, virou arquitetura, virou jeito de viver!

E vive, também, em mim. Naquela mesa da família do meu pai, naquele apreço pela beleza e pelo trabalho bem feito que aprendi sem perceber.

São Paulo carrega a Itália no seu DNA. E eu me sinto, cada vez mais, filho dos dois.


📍 Instituto Italiano de Cultura de São Paulo — Av. Higienópolis, 436 Exposição “5+1” — até 2 de maio | Entrada gratuita Mostra Permanente de Cinema Italiano — Cine Teatro Denoy de Oliveira, Bela Vista

📍 Circolo Italiano / Edifício Itália — Av. Ipiranga, 344

IAGO CALEGARI | @iagocalegari

Iago Calegari é diretor criativo, estrategista de marketing e curador de experiências. Apaixonado por arte, cultura, gastronomia, vinhos e experiências estéticas, vê a cidade como um território de encontros, descobertas e sensações. Nesta coluna, percorre as muitas camadas do centro de São Paulo em busca de lugares, histórias e pessoas que mantêm viva a vida cultural da região — compartilhando reflexões e experiências para explorá-lo com mais sensibilidade e repertório.

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