Livros no Centro
Entro na Biblioteca Mário de Andrade e, antes de tocar em qualquer livro, já paro.

É inevitável. A arquitetura Art Déco de Jacques Pilon, projetada em 1935 e inaugurada em 1942, tem esse dom de suspender o tempo antes mesmo de você encontrar sua primeira prateleira. Os volumes do edifício, a escala da entrada, a luz que entra pelas vidraças laterais onde rostos de ex-frequentadores foram eternizados pelo artista Alex Flemming. É preciso respirar antes de continuar.
Depois, os pés me levam sempre para o mesmo lugar: a Coleção de Artes. Ali, entre livros especializados em artes visuais, música, cinema e teatro, sinto que estou no centro exato de tudo o que o centro representa para mim, um lugar que guarda, com cuidado e generosidade, o que a cidade tem de mais precioso: sua riqueza e diversidade criativa, nas mais distintas manifestações.
Fundada em 1925, a Biblioteca Mário de Andrade é hoje a maior biblioteca pública da cidade e a segunda maior do país, com um acervo que ultrapassa quatro milhões de itens. E é inteiramente gratuita. Aberta a qualquer pessoa, sete dias por semana. Há algo de profundamente bonito nisso — um patrimônio de quase cem anos que pertence, sem reservas, à cidade.
A Metrópole que lê
Mas a minha conversa com os livros no Centro não termina na Mário. Ela continua, e muito, a poucos passos dali, dentro da Galeria Metrópole.
A Tapera Taperá, instalada no segundo andar da Galeria, é um espaço não-profit que se apresenta como biblioteca, livraria e centro cultural. O nome vem do tupi e da ornitologia: tapera é a aldeia abandonada, taperá é a ave que faz seu ninho nos lugares que outros deixaram. É uma metáfora perfeita para o que acontece no centro — e para o que esse espaço representa dentro dele. O acervo reúne mais de 2.500 títulos voltados para as ciências sociais, filosofia, diplomacia, política, arte e cultura, sem deixar de lado produções independentes, quadrinhos e livros-manifesto. É o tipo de lugar onde você entra para folhear e sai com três livros e duas perguntas novas sobre o mundo.
Logo ali perto, a Lovely House é outra preciosidade da Metrópole. Fundada pela designer Luciana Molisani e pelo fotógrafo José Fujocka, é uma pequena livraria especializada em fotolivros, catálogos de exposição e livros de artista — nos quais obras de artes visuais e plásticas são concebidas em forma de livro. Entusiasmados com o movimento de revitalização cultural do centro paulistano, em 2023 os fundadores se mudaram para a Galeria Metrópole e trouxeram com eles uma curadoria internacional de rara qualidade. Para quem ama fotografia e arte contemporânea, é um destino obrigatório.
E tem ainda a HG Publicações — com curadoria focada em autoria preta, indígena, LGBT+ e independente — e o Sebo IP Livros, especializado em raridades e esgotados. A Metrópole virou, sem que ninguém tivesse planejado, um dos mais ricos clusters literários da cidade. Quatro espaços de livros em menos de um andar.
Para além da Metrópole

O território literário do centro não se esgota ali.
Na Praça da República, a Livraria Eiffel reúne livros nacionais e importados sobre arquitetura, urbanismo, design gráfico e paisagismo, um acervo que dialoga naturalmente com o ambiente modernista que a cerca. No térreo do Copan, a Livraria Megafauna tem uma seleção cuidadosa de livros sobre design e urbanismo que dialoga perfeitamente com a arquitetura de Niemeyer, é um dos lugares mais bonitos da cidade para passar uma tarde com um livro na mão.
E mais longe no tempo, mas igualíssimo no espírito, o Sebo do Messias, desde 1969 na Praça Dr. João Mendes, consolidado como o maior varejista de livros usados do Brasil e da América Latina. Vá com tempo. Vá com disposição para se perder entre andares de livros, discos e revistas. Vá com a mente aberta — porque o garimpo é sempre a melhor parte.

O que o livro revela sobre o centro
Há uma coisa que une todos esses espaços, tão diferentes entre si: a crença de que o livro é um bem que merece ser cuidado, compartilhado e celebrado. Da biblioteca pública e gratuita às livrarias especializadas com curadoria autoral, o centro construiu, organicamente, uma das cenas literárias mais ricas e diversas da cidade.
Não é coincidência. É consequência. O centro sempre foi um lugar de ideias em circulação — de intelectuais, artistas, imigrantes, trabalhadores, criadores de todos os tipos que se cruzaram nestas ruas e deixaram algo de si. Os livros são apenas a forma mais visível disso tudo.
Venha ao centro com tempo. Venha com curiosidade. E venha com espaço na mochila, porque você vai precisar!
📍 Biblioteca Mário de Andrade — Rua da Consolação, 94 | Entrada gratuita
📍 Tapera Taperá — Galeria Metrópole, Av. São Luís, 187, 2º andar, loja 29
📍 Lovely House — Galeria Metrópole, Av. São Luís, 187, 1º andar, sala 30
📍 HG Publicações & Sebo IP Livros — Galeria Metrópole, Av. São Luís, 187
📍 Livraria Eiffel — Praça da República, 183
📍 Livraria Megafauna — Av. Ipiranga, 200, Térreo, Copan
📍 Sebo do Messias — Praça Dr. João Mendes, 140
IAGO CALEGARI | @iagocalegari

Iago Calegari é diretor criativo, estrategista de marketing e curador de experiências. Apaixonado por arte, cultura, gastronomia, vinhos e experiências estéticas, vê a cidade como um território de encontros, descobertas e sensações. Nesta coluna, percorre as muitas camadas do centro de São Paulo em busca de lugares, histórias e pessoas que mantêm viva a vida cultural da região — compartilhando reflexões e experiências para explorá-lo com mais sensibilidade e repertório.
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