Exposição: Territórios Do Sonhar – Quando A Fotografia Vira Abraço

Há lugares que existem para nos fazer pensar. E há lugares que existem para nos fazer sentir. O Instituto Italiano de Cultura de São Paulo (IIC-SP), que fica na Avenida Higienópolis, nº 436 — num casarão eclético construído em 1922, tombado como patrimônio histórico da cidade — é, para mim, um dos raros que conseguem as duas coisas ao mesmo tempo.
Já escrevi sobre o Instituto aqui na coluna. Já falei da sua biblioteca com aproximadamente 23 mil títulos, dos seus cursos de língua italiana, dos itinerários culturais que partem dali para revelar as raízes italianas do centro. Mas desta vez o que me traz de volta é algo diferente. Algo que me tocou de um jeito que não esperava!
O Instituto tem uma qualidade que admiro profundamente: a de escolher bem o que vai abrigar e difundir. A programação cultural do IIC não é aleatória — ela reflete um compromisso genuíno com a sensibilidade, com a diversidade e com a crença de que a cultura é um bem que precisa circular livremente. Cada exposição, cada concerto, cada evento que passa pelas suas salas carrega essa marca. E a exposição que está em cartaz agora é um dos exemplos mais belos disso que já vi por aqui.

Elena Givone: a fotógrafa que coleciona sonhos
Elena Givone é fotógrafa e artista visual italiana, representada pela Contrasto e Fujifilm X-Photographer, seu trabalho já foi exibido internacionalmente — na China, no Brasil, na Europa — e percorre uma pergunta que parece simples e não é: o que você sonha?
Não é uma pergunta retórica. É um gesto de presença. De escuta. Ao longo de duas décadas, Elena desenvolveu projetos de fotografia participativa com crianças e comunidades marginalizadas na Europa, Ásia, África e América do Sul — colaborando com ONGs e transformando a câmera em ponte entre culturas e mundos interiores. O resultado é o projeto Dreams — uma coleção viva de esperanças, símbolos e imaginação compartilhada de todo o mundo, construída sobre um gesto de confiança: cada criança escrevia seu desejo no caderno de Elena e lhe confiava o que tinha de mais precioso.
Quando a entrevistei, ela me contou como tudo começou. Em Florianópolis, por volta de 2006 e 2007, trabalhando com crianças de uma comunidade em Palhoça, percebeu algo que a marcou profundamente: muitas delas não sonhavam. Os próprios pais diziam que quem nasce pobre continuará pobre para sempre. Elena havia realizado o seu sonho de se tornar fotógrafa, e sabia que isso só aconteceu porque um dia acreditou nele. Então decidiu que o maior presente que poderia oferecer àquelas crianças seria justamente isso: a oportunidade de sonhar.
Sobre um tapete voador, ela passou a convidá-las a fechar os olhos, voar e imaginar um futuro diferente. E a perguntar: qual é o seu sonho? O que você mais deseja?
Depois de Palhoça, o projeto seguiu para Salvador da Bahia, onde Elena trabalhou com crianças em unidades de internação. Foi lá que aconteceu um dos momentos mais emocionantes de toda a sua trajetória. Um menino a chamou da cela no dia seguinte ao projeto e gritou: “Elena! Elena! Eu voltei a sonhar que estava voando.” E então disse algo que jamais saiu da memória dela: “Eu não preciso mais do tapete para sonhar. Posso sonhar sozinho.”
Com o passar dos anos, outros elementos mágicos foram entrando no projeto: a lâmpada mágica, objetos inspirados nas culturas locais, o autorretrato como forma de pertencimento. As crianças passaram a perceber que faziam parte de algo muito maior: um mapa mundial de sonhos. Um jornal silencioso. Uma rede social antes das redes sociais existirem.
A exposição
Tudo isso está agora nas paredes do Instituto Italiano de Cultura de São Paulo, na exposição Territórios do Sonhar — com curadoria de João Kulcsár, integrando a programação do Festival de Fotografia de São Paulo.
A mostra apresenta uma retrospectiva de projetos realizados em diferentes partes do mundo, com fotografias que revelam infâncias, comunidades e subjetividades frequentemente invisibilizadas. Entre realidade e fantasia, as imagens de Elena afirmam a fotografia como território poético, político e profundamente humano. Não são imagens que documentam a pobreza ou a dificuldade, são imagens que documentam o sonhar, o vislumbrar de novas possibilidades. E essa distinção muda tudo.
A exposição não termina com as fotografias. Ela convida o visitante a fazer parte dela: a escrever seu sonho num caderno, a fazer um autorretrato, a se tornar mais uma peça do mosaico mundial que Elena vem construindo há duas décadas.
Quando perguntei a ela o que gostaria que cada visitante sentisse ao sair, ela respondeu com uma beleza que me fez parar: “Gostaria que cada pessoa saísse desta exposição sentindo-se livre para compartilhar o seu próprio sonho. Somos como pequenas peças de um enorme mosaico. Cada sonho individual ajuda a construir algo maior. Acredito profundamente que imaginar, acreditar e cuidar dos nossos sonhos é o primeiro passo para torná-los realidade.”
E depois: “Quero que esta exposição seja um abraço: um abraço que acolhe, inspira e convida cada visitante a entrar no seu próprio sonho.”
Por que você precisa ir
Porque o Instituto Italiano de Cultura é, em si, um lugar que merece ser vivido, e essa exposição é uma das mais belas razões para cruzar o seu portal. Porque a fotografia de Elena Givone não documenta: ela transforma. Porque há crianças de Florianópolis, de Salvador, de lugares do mundo que você talvez nunca vá visitar, que sonharam e tiveram seus sonhos eternizados numa imagem. E esses sonhos estão esperando por você, gratuitamente, num casarão histórico de Higienópolis.

Instituto Italiano de Cultura de São Paulo — Av. Higienópolis, 436 – Higienópolis
Exposição Territórios do Sonhar — Elena Givone
Visitação: 27 de maio a 17 de agosto de 2026
Segunda a sexta, das 10h às 19h | Sábados, das 10h30 às 17h30
Entrada gratuita
Comentários estão fechados.