Exposição: Guido Totoli e São Francisco: Terra, Transformação, Espírito, no coração de Higienópolis
Na vida, há encontros que parecem inevitáveis. O do artista Guido Totoli com São Francisco de Assis é um desses.

Não aconteceu de repente, foi se construindo desde a infância, num acúmulo silencioso de afinidades que só a arte sabe nomear: a simplicidade das formas, a escuta e conexão com a natureza, a crença de que o sagrado não mora acima das coisas, mas dentro delas. Na terra, nas mãos, no gesto de moldar o barro como quem faz uma prece.
E agora esse encontro chega ao Instituto Italiano de Cultura de São Paulo, na Avenida Higienópolis, numa exposição que me tocou de um jeito inesperado, e que quero muito dividir com vocês!
O Artista e o Santo: 800 anos de uma mensagem que não envelhece
Em 2026, o mundo celebra os 800 anos da morte de São Francisco de Assis, o santo italiano nascido em 1181 que renunciou à riqueza, abraçou a pobreza como vocação e dedicou a vida à fraternidade com todas as criaturas. A mensagem franciscana de paz, partilha, respeito pela natureza e cuidado com a Terra, ressoa hoje com uma urgência que o próprio Francisco provavelmente reconheceria: num mundo que esqueceu de ouvir o que a terra tem a dizer, o poverello (pobrezinho) de Assis continua sendo uma espécie de resposta.
O Instituto Italiano de Cultura promoveu ao longo de 2026 um ciclo de iniciativas em homenagem a esse aniversário. E a exposição Guido Totoli e São Francisco. Terra, Transformação, Espírito, marca o capítulo final desse ciclo tão importante e sensível.

Sobre o artista: Guido Totoli
Nascido em Cilento, região da Campânia, no sul da Itália, Guido Totoli construiu no Brasil uma carreira marcada por uma busca constante: de materiais, de linguagens, de formas que digam algo que as palavras não conseguem. Transita entre a pintura, a escultura, a cerâmica e o desenho com aquela liberdade de quem entende que o que importa não é o suporte, mas o que ele carrega.
Em 2025, o Governo Italiano reconheceu sua trajetória com a condecoração Cavaliere dell’Ordine della Stella d’Italia, uma das mais importantes honrarias concedidas a cidadãos que fortalecem os laços entre a Itália e outros países por meio de sua atuação cultural. Um artista italiano que escolheu o Brasil, e que o Brasil também escolheu.
Sua obra faz parte do projeto do Instituto Italiano de Cultura de valorizar artistas italianos que contribuíram para a formação da arte moderna e contemporânea no Brasil. Um projeto que, como amigo e parceiro do Instituto, além de apaixonado pela arte e cultura italianas, acompanho com muito orgulho e atenção. E que também coroa uma das histórias que o Centro de São Paulo guarda com mais carinho: a da Itália que chegou aqui e nunca parou de criar.

A exposição
Com curadoria de Claudia Totoli, filha do artista e guardiã do seu acervo, a mostra reúne esculturas, cerâmicas, pinturas e desenhos inspirados na figura de São Francisco. Não um São Francisco mítico ou distante, mas uma figura profundamente humana: capaz de empatia, de escuta, de ver no pássaro e na pedra a mesma dignidade que nos olhos de um amigo.
As obras de Totoli têm essa qualidade rara: elas não explicam o sagrado, elas o habitam. A matéria, a argila, o pigmento, o traço. Parecem guardar algo que foi colocado ali com cuidado e com fé. E a mensagem que atravessa cada peça dialoga diretamente com o que São Francisco viveu e pregou: que a terra não é um recurso, e sim uma dádiva! E precisa ser tratada como tal.
Em tempos em que o debate sobre o cuidado com o planeta nunca foi tão urgente, ver a espiritualidade franciscana traduzida em arte contemporânea é um lembrete de que algumas perguntas têm 800 anos, e ainda estão esperando por respostas.

Por que vale muito ir
Porque o Instituto Italiano de Cultura é, como já disse aqui outras vezes, um dos espaços culturais mais generosos e cuidadosos de São Paulo. Porque Guido Totoli é um artista que merece ser descoberto — ou, melhor, redescoberto! E porque essa exposição oferece algo que raramente encontramos nas grandes mostras: quietude e escuta da natureza. Do tipo que convida à contemplação despretensiosa, ao autoconhecimento, às perguntas mais simples e fundamentais sobre o que fazemos com o que temos.
São Francisco de Assis diria que basta olhar, pois a resposta já está na terra. Guido Totoli, com suas mãos e seus materiais, parece concordar.
📍 Instituto Italiano de Cultura de São Paulo — Av. Higienópolis, 436
Exposição Guido Totoli e São Francisco. Terra, Transformação, Espírito
Visitação: 18 de setembro a 7 de novembro
Segunda a sexta, das 10h às 19h | Sábados, das 10h30 às 17h30
Visitas guiadas aos sábados (11h) e quintas-feiras (15h) — inscrições gratuitas no site do Instituto
Entrada gratuita
IAGO CALEGARI

Iago Calegari é diretor criativo, estrategista de marketing e curador de experiências. Apaixonado por arte, cultura, gastronomia, vinhos e experiências estéticas, vê a cidade como um território de encontros, descobertas e sensações. Nesta coluna, percorre as muitas camadas do centro de São Paulo em busca de lugares, histórias e pessoas que mantêm viva a vida cultural da região — compartilhando reflexões e experiências para explorá-lo com mais sensibilidade e repertório. @iagocalegari
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