Suplementos: Necessidade Ou Desperdício De Dinheiro?

Por Sabina Donadelli

 

Confesso: tenho um armário cheio de frascos coloridos que prometeram me transformar em uma versão melhorada de mim mesma. Vitamina D para o humor. Colágeno para a pele. Ômega-3 para o cérebro. Magnésio para o sono. Ashwagandha para a ansiedade (que, ironicamente, aumentou quando vi o preço). Se bem-estar fosse medido em cápsulas acumuladas, eu seria a pessoa mais saudável do planeta.

O mercado global de suplementos ultrapassou US$ 250 bilhões em 2025 e deve alcançar US$ 280 bilhões em 2026. No Brasil, R$ 10 bilhões no último ano. A questão que se impõe: quanto dessa suplementação em massa é realmente necessária e quanto é apenas marketing sofisticado disfarçado de ciência?

Do ponto de vista clínico, deficiências nutricionais são reais. Estudos mostram que 20% dos brasileiros têm deficiência de vitamina D — irônico para um país tropical. Noventa por cento consomem cálcio abaixo do recomendado. Magnésio? Oitenta por cento na mesma situação. A pesquisa EBANS identificou inadequações graves no consumo de vitaminas D, E e colina, além de minerais essenciais.

 

Então sim, suplementação pode ser uma ferramenta terapêutica. A questão crucial é: para quem, quando e quanto?

O problema surge quando a indústria descobre que vender vai além da necessidade biológica. Como a alta-costura aprendeu há décadas, o mercado está no desejo. Marcas premium parecem perfumarias. Têm unboxing experience, influenciadores, narrativas sobre ingredientes do Himalaia. Design minimalista, promessa maximalista. Segundo a ABIAD, o mercado brasileiro cresceu 41% apenas nos primeiros meses de 2025.

Vivemos a era da wellness culture, onde otimizar cada aspecto da vida virou obsessão. O desafio é que muitos benefícios prometidos carecem de respaldo científico para populações saudáveis. Ou aplicam-se apenas a quem tem deficiências comprovadas — não a quem acabou de tomar um açaí bowl orgânico e está considerando colágeno no café porque celebridades fazem isso.

Na prática clínica, algumas suplementações são essenciais: vitamina D para níveis comprovadamente baixos; B12 para veganos; ácido fólico para gestantes; ferro para anemia ferropriva; ômega-3 quando o consumo de peixes é insuficiente. A palavra-chave é individualização. Não existe suplementação universal — existe a adequada para cada história clínica, cada padrão alimentar, cada contexto de vida.

 

O caminho sensato? Primeiro: exames laboratoriais revelam deficiências reais. Custam menos que três meses de suplementação aleatória. Segundo: alimentação de verdade é insubstituível. Vegetais, frutas, proteínas de qualidade, gorduras saudáveis. Terceiro: desconfie de promessas milagrosas. Se um produto promete aumentar energia, foco, equilibrar hormônios E rejuvenescer, provavelmente só vai aliviar o orçamento.

Voltando ao meu armário: hoje mantenho apenas vitamina D (níveis comprovadamente baixos) e ômega-3 (consumo insuficiente de peixes). O resto? Desperdício financeiro bem embalado. Não me sinto menos otimizada. Apenas mais consciente.

Porque, no fim, longevidade saudável não vem em cápsulas. Vem de escolhas alimentares consistentes, movimento regular, sono reparador — e não cair na ilusão de que existe uma pílula mágica para cada aspecto da vida que desejamos aprimorar. Suplementos têm seu lugar legítimo na medicina. Só não é o lugar que o marketing quer nos fazer acreditar.

Sabina Donadelli

Nutrindo Vidas, transformando histórias


Sabina Donadelli

 

 

Sabina Donadelli é nutricionista e aromaterapeuta, com especialização em Nutrição Clínica Funcional. Ao longo de sua carreira, dedica-se a integrar ciência e práticas milenares, promovendo o equilíbrio físico e emocional de seus pacientes.

Além de atuar na área clínica, Sabina também é criadora de conteúdo digital, onde compartilha conhecimento e reflexões sobre nutrição, saúde e autocuidado. Seu objetivo é inspirar seus seguidores a adotar um estilo de vida saudável e equilibrado.

Desde 2017, Sabina é membro da Academia Brasileira de Gastronomia, onde atualmente integra a diretoria. Sempre em busca de expandir seus conhecimentos, ela combina práticas culturais brasileiras com tendências contemporâneas, contribuindo para uma visão holística da alimentação e do bem-estar.

 

@sabinadonadelli

https://sabinadonadelli.com.br/

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