Se Aqui Já Vivemos Mais, Que 2026 Seja O Ano De Viver Melhor

Existe um mapa da cidade de São Paulo que nunca sai nas fotos de revista, mas acompanha silenciosamente a nossa rotina: o mapa da expectativa de vida. Em alguns bairros, a média passa dos 80 anos; em outros, não chega aos 60. Morar nos Jardins – e circular por esse universo de ruas arborizadas, serviços, restaurantes e segurança relativa, significa, na prática, viver muitos anos a mais do que quem enfrenta diariamente a vulnerabilidade na periferia. Isso não é um detalhe estatístico. É um privilégio.
Quando olhamos para esse privilégio apenas pela lente do consumo, perdemos metade da história. Não se trata de culpa, mas de responsabilidade. Se o CEP em que vivemos já nos coloca, de saída, em uma posição de maior acesso à saúde, alimentação de qualidade, lazer e cuidado, o que escolhemos fazer com isso? Como usamos esse “bônus de anos” que a cidade nos deu?
Cuidar do corpo, nesse contexto, deixa de ser apenas uma questão de estética ou performance e passa a ser um compromisso com a forma como queremos atravessar o tempo. Viver mais não significa acumular aniversários; significa chegar a cada década com autonomia, clareza mental, força física e espaço para o prazer. Em bairros como os Jardins, os recursos para isso existem. O que falta, muitas vezes, é uma decisão íntima de viver com mais consciência – e menos automático.
Começamos pelo prato, porque ele é cotidiano, concreto e democrático dentro desse recorte. Quem tem acesso a bons ingredientes, a restaurantes, a feiras e mercados variados pode escolher: comer no piloto automático, repetindo os mesmos excessos de ultraprocessados, açúcar e álcool, ou transformar cada refeição em um ato de respeito ao próprio corpo. Não é sobre restrição punitiva, e sim sobre lembrar que comida de verdade – colorida, fresca, sazonal é um investimento diário na nossa longevidade.
Responsabilidade também é presença. Fazer pelo menos uma refeição da semana sem telas, sem reuniões, sem pressa – apenas você, o prato e, se houver, as pessoas com quem divide a mesa. Esse simples gesto muda a forma como mastigamos, sentimos o sabor e percebemos a saciedade. Comer com presença diminui o exagero, reduz a culpa e nos reconecta com algo que a vida acelerada tentou roubar: o prazer calmo de ser nutrido.
Mas a responsabilidade não termina no indivíduo. O que se escolhe comer e consumir nos Jardins influencia cardápios, vitrines, tendências e estratégias de mercado. Quando um público exigente começa a valorizar menos o excesso e mais a qualidade – ingredientes limpos, origem responsável, preparo cuidadoso, isso envia um recado claro para a cadeia toda. Aos poucos, o que é opção “diferenciada” passa a ser o novo padrão desejável, e essa mudança acaba se espalhando para além das fronteiras do bairro.
Se aqui já vivemos mais, talvez o chamado de 2026 seja justamente este: viver melhor. Com menos desperdício de alimento e mais respeito a quem planta, colhe e cozinha. Com menos dietas extremas e mais escolhas consistentes. Com menos culpa diante do espelho e mais compromisso com o corpo que nos permite caminhar, abraçar, trabalhar e amar por tantos anos.
O convite desta coluna, para inaugurar o ano, é simples e profundo: que cada leitor escolha um gesto concreto de responsabilidade com a própria longevidade. Pode ser rever o café da manhã, reduzir um exagero que já cansou, resgatar o hábito de cozinhar em casa uma vez por semana ou transformar o jantar em um pequeno ritual de pausa. Um gesto só, mas assumido de verdade.
“Viver mais, viver bem” não é apenas o nome desta coluna. Pode ser o nome de um movimento silencioso que nasce aqui, nas mesas, nas cozinhas e nas escolhas diárias de quem já recebeu da cidade o privilégio de viver mais tempo. Em 2026, que esse privilégio se transforme em cuidado – consigo, com o outro e com o mundo à nossa volta.
Sabina Donadelli
Nutrindo vidas, potencializando histórias

Sabina Donadelli é nutricionista e aromaterapeuta, com especialização em Nutrição Clínica Funcional. Ao longo de sua carreira, dedica-se a integrar ciência e práticas milenares, promovendo o equilíbrio físico e emocional de seus pacientes.
Além de atuar na área clínica, Sabina também é criadora de conteúdo digital, onde compartilha conhecimento e reflexões sobre nutrição, saúde e autocuidado. Seu objetivo é inspirar seus seguidores a adotar um estilo de vida saudável e equilibrado.
Desde 2017, Sabina é membro da Academia Brasileira de Gastronomia, onde atualmente integra a diretoria. Sempre em busca de expandir seus conhecimentos, ela combina práticas culturais brasileiras com tendências contemporâneas, contribuindo para uma visão holística da alimentação e do bem-estar.
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