O Centro Que Soa E Ressoa Por Iago Calegari
Há uma música no centro de São Paulo que não está nos palcos. Ela está nas esquinas, nos corredores dos edifícios antigos, no ruído suave de uma cidade que nunca para de se reinventar. Antes de ver o centro, você o ouve. E quem aprende a escutá-lo descobre que ele tem uma trilha sonora extraordinária, plural e generosa, que vai do barroco ao samba sem pedir licença e sem cerimônia.
Eu vivo no centro e por vezes ainda me surpreendo. A cada semana, uma nova camada sonora se revela. E foi pensando nessas camadas que resolvi escrever sobre a música que habita, e que celebra, o coração da nossa cidade.

Os grandes templos que unem tradição e vanguarda
Nenhuma conversa sobre música no centro começa sem o Theatro Municipal. Inaugurado em 1911 e inspirado na Ópera de Paris, foi ali que aconteceu a Semana de Arte Moderna de 1922, com Villa-Lobos no palco, Mário e Oswald de Andrade na plateia, e o Brasil começando a se entender como Brasil. Mais de cem anos depois, o Municipal segue imponente na Praça Ramos de Azevedo, lembrando a todos que a música, quando é grande, atravessa gerações.
Logo ao lado, a Praça das Artes chegou em 2012 para completar esse ecossistema: abriga a Escola Municipal de Música, a Escola de Dança e os corpos artísticos permanentes da cidade. É onde o futuro da música paulistana está sendo formado, ensaio a ensaio, aula a aula.

Temos a Sala São Paulo que, para mim, é uma das maiores histórias de reinvenção do centro. O que era a antiga estação ferroviária Júlio Prestes tornou-se uma das mais belas e respeitadas salas de concertos do mundo, sede da OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Payulo). Nesta última terça-feira, estive lá para assistir a The Infamous Ramirez Hoffman — espetáculo de John Malkovich que une palavra falada e música ao vivo numa experiência que atravessa fronteiras entre teatro, literatura e concerto. Saí de lá com aquela sensação rara de quem acabou de ver algo que não esquecerá tão cedo! É o centro fazendo o que faz de melhor: receber o mundo e transformá-lo em algo ainda maior.
Espaços de encontro e proximidade
Mas a música no centro não vive só nos grandes palcos. Ela pulsa também nos lugares menores, onde a distância entre artista e ouvinte cabe numa mesa de bar.

A Casa de Francisca é o exemplo mais bonito disso. O palacete onde ela está instalada já abrigou a primeira loja de instrumentos da cidade, a editora Irmãos Vitale e a Rádio Record. Era conhecida, não por acaso, como “a esquina musical de São Paulo”. Hoje, com média de 600 shows por ano, é um dos espaços mais significativos de música do país. Uma história dentro de outra, como o centro sempre fez!
No JazzB, o jazz acontece perto do corpo. O espaço é pequeno, o palco é íntimo, e um Steinway centenário preside as noites com a autoridade silenciosa de quem já viu muita coisa. É o tipo de lugar onde você entra sem conhecer o artista e sai convertido.
O The S., dentro do histórico Circolo Italiano, é um dos mais bem guardados segredos do centro: sofisticado e discreto, com shows ao vivo que parecem acontecer só para quem sabe procurar.
E então, há o samba! O Bar Brahma, naquela esquina imortalizada por Caetano Veloso em Sampa, carrega desde 1948 a alma boêmia do centro: MPB, samba e conversas que duram até a madrugada. O Bar 34, aberto em 1953, segue o mesmo espírito: boteco raiz com roda de samba nas sextas e nos sábados, e aquela generosidade de um lugar que não precisa se explicar. Além de uma das melhores feijoadas do centro, servida aos sábados.
O que a música revela
Penso muito no que significa ter tudo isso concentrado num mesmo território. Sair de um concerto na Sala São Paulo e caminhar poucos quarteirões até ouvir samba ao vivo num bar aberto desde os anos 50. Cruzar com estudantes de música saindo da Praça das Artes enquanto o jazz começa a soar num espaço discreto ali perto.
O centro não tem um único som. Tem todos os sons! E é exatamente isso que o torna tão impossível de abandonar.
Venha ouvir o centro. Ele tem muita coisa a soar e ressoar em todos nós!
IAGO CALEGARI

Iago Calegari é diretor criativo, estrategista de marketing e curador de experiências. Apaixonado por arte, cultura, gastronomia, vinhos e experiências estéticas, vê a cidade como um território de encontros, descobertas e sensações. Nesta coluna, percorre as muitas camadas do centro de São Paulo em busca de lugares, histórias e pessoas que mantêm viva a vida cultural da região — compartilhando reflexões e experiências para explorá-lo com mais sensibilidade e repertório. @iagocalegari
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