O Boulevard mais Criativo do Centro
Tudo começa com um sábado ensolarado.
A vontade de perambular pelo meu centro já me deixa inquieto nos primeiros minutos do dia. Acordo cedo, por volta das 6h, saio para minha corridinha na Avenida Paulista e volto para tomar meu café da manhã com calma, decidindo por onde iniciarei minhas andanças. A resposta, quase sempre, já está dada antes mesmo de eu terminar a última xícara: a Avenida São Luís me chama! Faz travessa com a rua em que moro e ali sempre cruzo com amigos queridos que moram ou trabalham na avenida. Vou à Galeria Metrópole, passo para cumprimentar os amigos que têm espaços ali — todos muito criativos, por sinal — e deixo que o dia se desenrole no ritmo natural do lugar.
Mas tem uma coisa que me fascina nessa avenida: ela sempre foi assim. Ou melhor, ela sempre foi alguma coisa de especial!

Uma avenida com história (ou muitas histórias)
A São Luís começou como um simples beco no século XVIII — o “Beco Comprido” — e foi se transformando, ao longo das décadas, num dos endereços mais cobiçados da cidade. Nos anos 1940 e 1950, era símbolo de elegância e modernidade: Caetano Veloso e Gilberto Gil chegaram a morar por ali nos anos 60, atraídos pelo pulso cultural do lugar.
A Galeria Metrópole, projetada pelos arquitetos Gian Carlo Gasperini e Salvador Candia entre os anos 1950 e 1960, foi concebida para ser um ponto de encontro da elite paulistana: cinemas, bares, lojas, escadas rolantes e tudo o mais que uma metrópole em ebulição desejava. Com o tempo, veio o esvaziamento. Agências de câmbio e lojas de turismo foram tomando os corredores. O centro envelheceu no imaginário da cidade — e a Metrópole foi junto.
Mas, quem conhece o centro, sabe que ele não para! Ele se reinventa.

O renascimento criativo
No pós-pandemia, algo silencioso e poderoso começou a acontecer na São Luís. Artistas, designers, arquitetos, livreiros e criadores de todos os tipos foram chegando por ali. Atraídos pelos aluguéis mais acessíveis, pela arquitetura modernista deslumbrante e, sobretudo, por uma energia que só o centro tem: a de um lugar que sempre foi palco de encontros e que, portanto, sabe muito bem o que é recomeçar.
Hoje, a Galeria Metrópole abriga mais de 20 estúdios criativos, além de livrarias, restaurantes, cafés, ateliês e lojas colaborativas que têm em comum o olhar autoral e a vontade de fazer algo com significado. A Galeria Retina traz o olhar da arte contemporânea para dentro dos corredores, fazendo um convite permanente para parar, ver e sentir. A La Baguette, padaria artesanal do meu querido amigo Herbert, virou febre na internet com seus lanches de choripan e pesto, deliciosos e a preços super acessíveis, e merece a fila que tem! Designers de mobiliário, estilistas, artistas visuais… cada esquina da Metrópole conta uma história diferente, e todas elas convergem para o mesmo ponto: a São Luís como novo epicentro da criatividade paulistana.
A avenida inteira vibra nesse ritmo. No número 86, o Espaço República respira arte em cada andar — um prédio que parece ter sido feito exatamente para abrigar muito do que o centro tem de melhor em termos de criatividade e cultura. No Conjunto Zarvos, ali no número 258, feiras de design movimentam os corredores e conectam a São Luís à Consolação com aquela leveza de quem sabe que está no lugar certo. O Edifício Itália ancora a esquina com a Ipiranga como sempre fez: imponente, atemporal, testemunhando mais uma das muitas transformações do coração da cidade.
O que me prende aqui
Não é só a arquitetura, embora ela seja de tirar o fôlego. Não é só a gastronomia, apesar de ser completamente possível passar o dia inteiro comendo e bebendo muito bem por aqui. O que me prende na São Luís é o que acontece nos entre-lugares: a conversa que se forma no corredor da Metrópole entre dois criativos que mal se conhecem, o convite improvisado para uma abertura de exposição, o amigo que aparece do nada com uma indicação de espaço novo que você ainda não conhece.
E tem um lugar onde essas conversas, pra mim, ganham sempre um sabor especial: o Prosa & Vinho. Meu bar de vinhos favorito na Metrópole, que frequento semanalmente desde 2018, tem o dom de transformar desconhecidos em amigos em questão de uma ou duas taças. Não sei se é o vinho, se é a luz, se é o ambiente. Talvez seja tudo isso junto, temperado com aquela atmosfera única que só o centro sabe criar.
A Avenida São Luís não é só um endereço. É um estado de espírito.
E num sábado ensolarado, com o café ainda quentinho na memória e a cidade acordando ao meu redor, não há lugar onde eu prefira estar.
Venha para o centro! Venha para a São Luís. Traga sua curiosidade, e deixe o resto acontecer.
IAGO CALEGARI

Iago Calegari é diretor criativo, estrategista de marketing e curador de experiências. Apaixonado por arte, cultura, gastronomia, vinhos e experiências estéticas, vê a cidade como um território de encontros, descobertas e sensações. Nesta coluna, percorre as muitas camadas do centro de São Paulo em busca de lugares, histórias e pessoas que mantêm viva a vida cultural da região — compartilhando reflexões e experiências para explorá-lo com mais sensibilidade e repertório. @iagocalegari
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